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Sobre a difícil arte de saber criticar as crianças

27 de Outubro de 2016 | Lição de Casa

Imagem: PixabayHá várias possibilidades para que uma criança ou até mesmo um adulto apresente dificuldade de aprendizagem. São muitas as possíveis origens, e diagnosticá-las não é uma tarefa nada simples. 

Certa vez, durante a etapa de diagnóstico de aprendizagem de uma menina de sete anos, solicitei a ela que desenhasse seu quarto. Na ocasião, ela me fez várias perguntas sobre como deveria ser este desenho. Conversamos tranquilamente sobre as suas várias dúvidas. Ao final, ela me pediu para fazer o desenho em casa e trazer em nosso próximo encontro. Eu reiterei que ela poderia fazer um desenho simples de como era seu quarto. Expliquei que poderia ser feito numa folha branca comum, que poderia colorir ou não... Esses detalhes. 

Na semana seguinte, a criança chega com um envelope nas mãos e me entrega sem muito entusiasmo. Quando abri, havia o desenho do seu quarto feito num software próprio de projetos gráficos. Solicitei a ela que me explicasse o desenho. Ela prontamente me explicou: aqui mamãe desenhou minha cama, aqui meu armário, aqui mamãe desenhou a mesinha de estudos... E assim por diante. Eu agradeci por ter trazido o desenho que sua mãe havia feito e perguntei se ela havia trazido o dela. Meio sem jeito, ela explicou que tentou desenhar, mas achava muito feio e sua mãe dizia que estava errado. Foi então que sua mãe, entendendo como uma tarefa a ser cumprida, resolveu o problema fazendo ela mesma o desenho, muito bem feito.

Numa outra ocasião, recebi o comunicado de uma escola sobre uma das crianças a que atendia. Segundo a coordenadora, a criança se negava a fazer as atividades no horário integral. Numa atividade escrita, no espaço das respostas escrevia sempre "não sei". Durante a sessão psiciopedagógica, a criança me relatou que sempre se esforçava para fazer o melhor, mas que a professora sempre falava que a letra estava feia. A criança me disse ter perdido a vontade de desenhar as letras.

As histórias acima caracterizam bem situações bastante comuns e que podem causar inibição cognitiva em crianças. O senso estético, o cuidado com os detalhes, as relações de proporcionalidade nos desenhos e com a letra vão sendo apurados e refinados à medida que a criança vai desenvolvendo suas habilidades cognitivas, motoras e perceptivas. E nem todas desenvolvem as mesmas habilidades nas mesmas proporções. Expor a criança a um alto nível de exigência na execução dos desenhos ou da letra, ainda no início de sua caminhada, pode afetar sua espontaneidade em expor suas produções.

O buraco vai ficando cada vez mais fundo. Mas o que fazer quando a letra ou os desenhos estão muito desproporcionais? (ao olhos de um adulto!)

Primeira coisa é ter respeito. Quando uma criança nos mostra suas produções, é um sinal de que confia em nós. Ainda que haja observações a serem feitas, primeiramente é preciso valorizar o que foi produzido. Pedir que explique como conseguiu fazer é uma boa dica. Enquanto ela descreve o que fez, vai abrindo espaço para apontarmos algum ponto que precisa ser melhorado. Tem crianças que aceitam mais interferências que outras. Aí vai da habilidade de percepção do adulto que cuida. Quando ainda estão pequenas, se abordarmos de forma respeitosa o que pode ser mudado ou melhorado, a criança sente confiança para mostrar também seus erros. Se desde muito cedo recebe críticas severas, vai acabar criando resistências.

O fato é que saber criticar é uma arte tão complicada e difícil de aprender como a de saber ouvir críticas. Ora somos quem critica, ora o criticado. Talvez esteja aí a beleza da coisa, pois nunca permanecemos numa só posição.