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Por que precisamos entender de gênero para educar crianças?

05 de Fevereiro de 2018 | Antiprincesas
genero_menino_menina_casal_Annie Spratt.jpg (3.12 MB)
"Desconstruir as noções de gênero que ouvimos durante boa parte da vida aumenta a gama de escolhas que nossos filhos e filhas,
como indivíduos, terão" | Foto: Annie Spratt

 

Muita gente sai correndo quando a conversa é sobre gênero, estereótipos, masculino e feminino. Porém, você vai ver que entender um pouquinho do tema não é nem um bicho de sete cabeças. Mais: acredito ser muito importante para que a gente consiga criar crianças melhores para o mundo – este é, como vocês sabem, o lema da Canguru.

Mas então do que se trata toda essa discussão de gênero? O fato de o debate estar na pauta é um mimimi desnecessário como defendem algumas pessoas ou é um sinal de que os tempos estão mudando? O que significa, afinal, gênero?

De acordo com Beatriz Lins, Bernardo Machado e Michele Escoura, gênero é "um dispositivo cultural, constituído historicamente, que classifica e posiciona o mundo a partir da relação entre o que se entende como feminino e masculino" (p. 10). A grande questão por trás disso é que a forma com que entendemos as diferenças de gênero cria "expectativas a respeito de como devemos agir, do que pensar e do que gostar" (p. 10). O termo gênero começou a ser utilizado na década de 1970 para propor novas maneiras de pensar masculino e feminino. Diversas pesquisas realizadas em várias partes do mundo foram mostrando, pouco a pouco, que fatores sociais e não somente biológicos – como se pensava até então – é que explicam as diferenças entre masculino e feminino. Ou seja, muito do que entendemos como essencialmente “feminino” é, na verdade, “inventado” pela cultura. Ufa! Porque isso significa que também pode ser reinventado...

As autoras e o autor que citei acima escreveram o livro Meninos e meninas: diferentes, mas não desiguais (ótima leitura, aliás) para discutir a questão de gênero na escola. Em uma pesquisa realizada com crianças do primeiro ano do ensino fundamental, estas foram solicitadas a listar “coisas de menino” e “coisas de menina”. Na primeira lista (menino), apareceram palavras como bola, piloto e força; já na segunda (menina), foram escritas as palavras casa, modelo e amor.

O problema é quando um menino
deixa de manifestar suas emoções
por medo ou vergonha.
Outro problema é quando uma menina
cresce e percebe que ser mãe
não tem nada a ver com ela,
mas se sente forçada
porque é assim que as coisas são.

 

O fato de as listas serem estas – e não opostas, por exemplo – mostra que a construção do que entendemos como gênero (seja masculino ou feminino) acontece diariamente e em pequenas doses. Pense no seguinte: quantas vezes uma criança que tem hoje 1 ano de idade vai ouvir que “menino não chora” e que “toda mulher quer ser mãe”? Não há nenhum problema em querer ser mãe, mas a maternidade pode não ser para todas e tudo bem. Frases como essas vêm da família, da escola, de pessoas em quem as crianças confiam e vão acabar por moldar as tais normas ou estereótipos de gênero. O problema é quando um menino deixa de manifestar suas emoções por medo ou vergonha. Outro problema é quando uma menina cresce e percebe que ser mãe não tem nada a ver com ela, mas se sente forçada porque é assim que as coisas são.

Para Nadine Gasman, representante da ONU Mulheres e autora da orelha do livro, "os estereótipos de gênero seguem como um freio às possibilidades que meninas e meninos podem alcançar”. Então quando eu falo que não devemos limitar as meninas ao estereótipo da princesa, é disso que estou falando. Repito: não há nenhum problema em crianças brincarem de serem princesas, príncipes, ogros, sapos, super heróis ou o que a imaginação mandar. O problema é limitar as meninas às princesas frágeis, passivas e doces e encerrar os meninos em personagens salvadores que usam a força para resolver todos os seus problemas. Porque se brincarem só disso, eles vão achar que são isso.

Mas por que eu insisto que devemos ampliar a forma como entendemos gênero ao educar crianças? Porque – imagino que você já tenha reparado – nós vivemos em uma sociedade machista e patriarcal. E o machismo é ruim para todos, homens e mulheres, meninas e meninos. Quantos excelentes enfermeiros e costureiros incríveis o mundo já perdeu porque estas são atividades rotineiramente associadas às mulheres? E quantas programadoras e policiais deixamos de formar por entendermos que cabem aos homens tais funções? Pois é. A descontrução desse modelo de pensamento liberta – e não limita, como algumas pessoas podem pensar. Liberta homens para serem pais carinhosos e para falarem mais de suas emoções (tornando-se assim adultos mais saudáveis). Liberta mulheres para que escolham ser fortes, presidentes de empresas ou não terem filhos se assim o desejarem. Liberta as pessoas das normas sociais. Quem quiser segui-las, ótimo, mas quem não quiser, maravilha também! Desconstruir as noções de gênero que ouvimos durante boa parte da vida aumenta a gama de escolhas que nossos filhos e filhas, como indivíduos, terão. É é por isso que vale a pena a gente entender um pouquinho do assunto!

 

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