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Cris Guerra: 'O que acabou é só começo, cada início vem sempre de um fim'

01 de Janeiro de 2018 | Colunas

Por Cris Guerra

 

“And so this is Christmas”, cantaram eles em uníssono, acionando o botão infalível que nos faz chorar no fim do ano. Minutos antes, pintavam o rosto ao entoar uma roupagem recente de um grito milenar: “Passarinho de toda cor/ gente de toda cor/ amarelo, rosa e azul/ me aceita como eu sou”. Se naquela manhã eu enxuguei lágrimas que já me encharcavam o pescoço, o que eu faria na despedida?

Dois dias depois, ele acordou cedo pra escolher a roupa. Mas a euforia de ir para a aula sem uniforme não falaria mais alto que a angústia de dar aquele passo difícil, deixando tanto amor para trás. Nem mesmo a velha alegria de entrar de férias. Ninguém é capaz de sorrir ao se despedir do Lúcia.

Talvez tenha sido uma fuga chegar de fato mais tarde, como ele pediu. A torneira já se havia aberto, e ele buscava o meu olhar. Abraçamo-nos aos soluços, duas crianças com medo de crescer. O mundo me pareceu grande demais, e eu cheguei a desejar que ele fosse assim, miúdo, pacato, acolchoado de afeto como aquela escola em que ele subiu degraus tão importantes.

Sua primeira vez ali foi a contragosto. Entrou ressabiado, negando-se a escrever em letra cursiva, como quem assina um protesto em letras garrafais. Não queria deixar para trás amizades construídas ao longo de um par de anos. Aquele litro de lágrimas amoleceu meu coração, mas não recuei. A decisão estava tomada.

Estradas desconhecidas, passos
nem tão seguros, lá vamos nós
mais uma vez.

Bastou uma semana para ele compreender que ali era lugar de ser feliz – e enfim pude respirar. Expressou sua mudança de opinião num diário secreto, caligrafia caprichosa, maiúsculas e minúsculas dando-se as mãos em harmonia.

Dois anos podem ser nada, quatro anos podem ser pouco – ou muito, depende do tamanho da vida. Não sei nomear meu choro, se saudade ou gratidão, se orgulho, medo ou alegria. É mais um mundo que surge, mais um parto que dói e diz tanto. É Francisco que nasce de novo, agora maior. Estradas desconhecidas, passos nem tão seguros, lá vamos nós mais uma vez. Crescer é deixar para trás, ganhar é perder, fazer uma escolha é abrir mão de todas as outras. O que acabou é só começo, cada início vem sempre de um fim.

Daqui a algumas décadas, pode ser que ele nem se lembre desse dia. Como não me lembro da minha despedida do Colégio Loyola, 30 anos atrás. Ironicamente, há poucos dias, um jantar reuniu meus colegas do ensino médio. Assistimos a cenas esquecidas, ouvimos vozes alheias recontando a nossa história. Descobrimos ser as meninas e os meninos de sempre, eufóricos em um inesperado recreio estendido.

Escola é lugar de plantar gente. E com cada pé de menino que cresce de um dia para o outro, sem que a mãe note, espicha um molho de fé verde-vivo, com aroma de manjericão.

 

Para Coli, Rô, Ju, Corina, Tidinha, Gabi, Dê, Marina e toda a equipe da escola Lúcia Casasanta.

 

Cris Guerra é publicitária, escritora e palestrante. Fala sobre moda e comportamento em uma coluna na rádio BandNews FM e a respeito de muitos outros assuntos em seu site www.crisguerra.com.br. Na Canguru, escreve sobre a arte da maternidade. crisguerra@canguruonline.com.br

 

 

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