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Cris Guerra: 'Entre mãe e filho, são sagradas essas terras de encontro'

04 de Junho de 2018 | Colunas

Por Cris Guerra

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O cafuné de dedos longos durante seus telefonemas idem. A sopa de legumes que eu dava um jeito de preparar à noite, a fim de roubar sua atenção durante o seu tempo com meu pai em frente à TV. Os domingos na Feira Hippie, a pretexto de comprar roupas para a minha boneca Susi. As sobremesas quentes, as feitas de banana — ou as sobremesas quentes feitas de banana. Essas eram nossas pequenas salas de estar, onde eu e minha mãe nos refestelávamos, agarradas a um afeto quente e justo. Com espaço suficiente, mas sem qualquer vão por onde pudesse passar uma corrente fria de vento. Para lá o amor sempre dava um jeito de fugir e se aconchegar, mesmo que por curtos períodos.

Naqueles territórios, falávamos nossa própria língua. Carregada de sotaque e compreendida sem esforço, mesmo em baixo tom de voz. Nossos lugares de encontro, onde jamais faltou assunto ou restou constrangimento.

Se somos cinco filhos, cada um de nós teve uma mãe diferente, mesmo que ela fosse uma só. E um mesmo homem foi pais diversos para seus filhos, como somos pessoas únicas para cada um dos nossos afetos. São os mapas que traçamos em conjunto, ou as linhas pontilhadas que deixamos de reforçar. Em cada família restam limites duvidosos, para os quais se adivinham vizinhanças nem sempre amigáveis. Roraimas inteiros de poucas afinidades e baixa densidade de afeto. Construir territórios não é uma arte óbvia.

Entre mãe e filho, são sagradas essas terras de encontro. Eu e Francisco frequentamos o disco Universo ao Meu Redor, de Marisa Monte, que eu costumava cantar e dançar para fazê-lo dormir. Uma década depois, basta um trajeto mais longo de carro ao seu lado para que eu comece logo a cantar. Ele adormece rápido, não importando o cansaço ou a hora. Universo é a nossa casa de praia, com um mar azul ao redor. Permanece fechada por meses, mas se abre para temporadas memoráveis, em que enfrentamos felizes os acessos de espirro dos primeiros instantes. Saímos dali irremediavelmente abastecidos para mais algum tempo de estrada.

Territórios afetivos são capazes de transportar o coração para os ouvidos, ou para a boca, quem sabe até diretamente para o diafragma, que se contorce na gargalhada.

Passei a vida sonhando conquistar terras de afeto em meu pai, como quem joga uma partida de War. No fim do jogo, uma virada-surpresa. Enquanto ele convalescia, meus longos cafunés preenchiam as tardes de silêncio, amortecendo o eco da desesperança. Foi o que nos restou dialogar.

Plantar lugares de encontro é firmar laços de ternura. O cultivo é de longo prazo: há que se conhecer o terreno, adivinhar a incidência de luz, irrigar no tempo certo, suportar os caprichos do clima. Talvez o único investimento que de fato seja herança.

Sólidos patrimônios amorosos que me envaideço de declarar. Um verdadeiro inventário de amor para a vida.

 

 

Cris Guerra é publicitária, escritora e palestrante. Fala sobre moda e comportamento em uma coluna na rádio BandNews FM e a respeito de muitos outros assuntos em seu site www.crisguerra.com.br. Na Canguru, escreve sobre a arte da maternidade. crisguerra@canguruonline.com.br

 

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