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Existe mesmo brinquedo de menino e brinquedo de menina?

18 de Setembro de 2017 | Antiprincesas
anuncioLego1981.jpg (1.08 MB)
Os tempos mudaram... Anúncio da Lego divulgado em 1981

Existe mesmo brinquedo de menina e brinquedo de menino? Parece uma pergunta boba, afinal são só brinquedos... Mas será que essa discussão é tão tola assim? A infância não deveria ser uma fase livre, de experimentar tudo, testar todas as possibilidades, independente do gênero? É isso que defende a psicóloga infantil Daniella de Faria. Só que quando definimos que alguns brinquedos são para menina e outros para menino, estamos, na verdade, falando de estereótipos de gênero, que atualmente começam a ser construídos quando o bebê ainda está na barriga da mãe.

Normalmente, as gôndolas das lojas de roupas infantis são divididas em sessões menino e menina. Rosa e azul, para ser mais específica. Mas como chegamos nessa divisão? Jerramy Fine, autora do livro In defense of the princess: how plastic tiaras and fairytale dreams can inspire strong, smart women, destaca que já vivemos algumas idas e vindas quando se trata de cores associadas a gêneros. Após a Segunda Guerra, por exemplo, a moda passou a defender a ideia de rosa para meninas e azul para meninos. Porém, o movimento de liberação dos anos 1970 acabou promovendo a ideia de roupas e brinquedos de cor neutra para meninas e meninas, o que vigorou até os anos 1980. Basta lembrar o anúncio da Lego que fez história nessa época com uma menina brincando com blocos “univerais de montar”, vestida com macacão jeans, camiseta cinza e tênis azul marinho (foto acima). Só que, a partir de então, exames pré-natais passaram a revelar o sexo dos bebês antes mesmo de seu nascimento e este fato passou a ser celebrado com quartos, roupas e festas nos tons azul e rosa. Torço para que tenhamos chegado no limite desse fetiche com as cores. Felizmente, temos assistido uma nova onda, ainda que tímida, em direção à neutralidade das roupas infantis.

Para além das roupas, o que mais me aborrece é escolher presentes para crianças. Quais são as opções? Para as meninas, ferros de passar, panelinhas, maquiagens, princesas, carrinhos de bebê, tudo trabalhado no rosa e no glíter. Para os meninos, aviões, carros, monstros, super-heróis. Já falamos aqui que a construção de estereótipos de gênero começa muito cedo. E isso é grave, porque impacta não só nos papeis sociais, como na vida profissional futura dessas crianças. E isso é assunto sério. Tanto que o governo norte-americano lançou uma campanha, em 2015, para quebrar os estereótipos dos brinquedos infantis. A ONG britânica Let Toys be Toys ressalta que brinquedos focados em tecnologia e construção geralmente são direcionados para meninos e brinquedos que lidam com artes, papeis sociais e trabalhos manuais são comumente encontrados em seções para meninas. Porém, com essa divisão, meninas e meninos perdem a chance de se envolver com uma ampla gama de experiências e isso limita suas potencialidades futuras. Uma das lutas da ONG é alterar placas de Meninos e Meninas nas seções de brinquedos para Ciências, Aventura, etc., ou seja, agrupar por função e não por gênero.

Minha mãe, que tem dois netos e uma neta, é super atenta às questões de gênero e se esforça para dar brinquedos bacanas pra eles. Mas noto que ela se incomoda se só encontra cozinhas e panelinhas em rosa ou lilás. Afinal ela quer presentear um dos netos. E essa questão das cores é mesmo muito chata. Limita. E sei que pode ser um empecilho pra quem está começando a rever os papeis de gênero com os quais está acostumado. Então acho válido que os fabricantes de brinquedos ampliem a paleta de cores. Tem tanta cor por aí, né, pra que tanta fissura por rosa? Eu sei, pra vender mais. Mas além de procurar cores mais neutras, será que esta não é uma oportunidade para abraçarmos todas as cores? Qual é o grande problema de um menino ter um brinquedo rosa e uma menina ter um brinquedo azul? Se queremos ensinar que as cores não importam tanto assim, talvez esse seja um bom começo. Fácil, não é. Eu, mãe de menino, confesso que tenho poucos brinquedos cor-de-rosa em casa. Mas quero aumentar esse número.

Ampliar e inverter esses papeis tradicionalmente associados a homens e mulheres é fundamental para as crianças. E isso pode incluir, às vezes, chocar família e sociedade. Temos um poder enorme nas mãos, mesmo se não temos filhos. Porque eventualmente somos convidados para um aniversário de criança, certo? Então eu convido você a dar uma boneca para um menino e um avião para uma menina. Porque vamos ao limite... Pense no “pior” que poderia acontecer caso um menino brinque bastante de boneca… Quem sabe ele pode se tornar um pai amoroso e que divide a criação dos filhos? Se ele brincar com panelas e vassouras, o que de mais preocupante pode acontecer? Ele vai aprender que é absolutamente normal cozinhar e limpar a própria casa e possivelmente vai dividir muito mais igualmente as tarefas de casa com sua companheira (ou companheiro) no futuro. Uau, revolucionário! E o que pode acontecer se meninas forem encorajadas a brincar com carros, aviões, super heróis, consertos em geral? Elas provavelmente aprenderão que o mundo das grandes máquinas, dos cálculos, da engenharia e da computação não está fechado para elas pelo fato de serem meninas. Podem aprender que é normal ver uma motorista de taxi ou uma mulher pilotando um avião. No limite, brincar com um martelinho pode contribuir para mudar o triste fato de que somente 29% dos cargos ligados à matemática, enganharia, tecnologia e ciências são ocupados por mulheres nos Estados Unidos.

E, se você ainda tem dúvidas se um brinquedo é de menino ou de menina, você pode fazer a seguinte pergunta: "Para utilizar este brinquedo, os órgãos sexuais são necessários?" Se você respondeu SIM, bem, provavelmente não é um brinquedo para crianças. E, se você respondeu NÃO, então o brinquedo serve tanto para meninos quanto para meninas. Simples assim. Essa reflexão foi trazida pelo Paizinho Vírgula nesse vídeo muito bacana sobre o tema:

 

O que quero dizer é que dar de presente de aniversário um martelo para uma menina e um ferro de passar roupa para um menino é um ato político, feminista (que busca a igualdade, lembram?) e revolucionário! Por quê? Porque eu garanto que a maioria dos presentes que essa menina vai ganhar estarão relacionados com o mundo cor de rosa dos afazeres domésticos ou com princesas. E porque a chance desse menino ganhar super-herois e carrinhos é muito grande. Porque a sociedade em que vivemos ainda é assim hoje. Se você não quer chocar tanto ou se acha que a família pode não entender o que você está tentando dizer, talvez você pode começar com brinquedos mais “neutros”, como blocos de montar, massinha de modelar, quebra-cabeça e, sempre, livros. Claro que esse texto é só uma sugestão minha para, devagarinho, mudarmos o modo com que criamos nossas crianças em direção a um mundo mais igualitário em termos de gênero.