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Timidez na primeira infância deve ser motivo de preocupação para os pais?

01 de Fevereiro de 2018 | Comportamento - Notícias
Traço da personalidade, fase ou um momento delicado? Seja qual for a circunstância, é preciso estar atento ao jeito introspectivo na primeira infância

Por Luciana Ackermann

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A pequena Clarice, 4, costuma se agarrar às pernas da mãe, Bruna Costa, quando se sente insegura | Fotos: Carlos Hauck

 

É um clássico: diante de desconhecidos ou pessoas não muito próximas que tentam interagir, os pequenos se escondem atrás das pernas da mãe ou do pai ou cobrem o rosto. Timidez, introspecção, somente uma fase ou sinal de algo que precisa ser revisto? Afinal, o que está por trás da timidez? É um problema ou apenas uma característica?

A Canguru buscou profissionais renomados para esmiuçar o assunto. Lidia Rosenberg Aratangy, psicanalista e psicóloga especializada em família e casais, autora de mais de 20 livros – entre eles, Pais que Educam Filhos que Educam Pais –, por exemplo, afirma que a introspecção é um componente da timidez e todos os humanos carregam-na na bagagem em menor ou maior intensidade. “Uma série de circunstâncias pode trazê-la à tona. É preciso prestar atenção no dia a dia da criança, pois em qualquer fase pode aparecer a dificuldade de se relacionar com o outro, o que nem sempre é um problema. Um mundo só de pessoas extrovertidas seria insuportável”,
afirma Lidia.

O psicanalista Francisco Daudt faz coro: “A introspecção é uma bênção. Nesses tempos de crianças viciadas em companhia, a criança quieta que brinca sozinha tem tudo para se tornar um futuro leitor, na mais introspectiva e solitária – além de educativa – das brincadeiras”. Mas ele também ressalta que, nos primeiros seis anos de vida, a timidez significa medo. “A criança está temendo o mundo fora de seu ninho, ‘estranha’ os outros, agarra-se à saia da mãe, chora em situações fora de seu habitat. Esses são sinais de que ela está superprotegida. Seria como uma criança que não tolerasse outro sabor que não o docinho do leite materno, que cuspisse o alimento de sal: ela não está sendo atendida em sua capacidade de ampliar sua zona de conforto, de transitar mais no mundo”, diz o psicanalista, que receita: “Criar um filho é dosar ninho e voo: falta de ninho machuca o pássaro; excesso, aleija e incapacita o pássaro para o voo. Uma criança muito temerosa, muito tímida, está tendo excesso de ninho”.

Em seu mais recente livro, A Criação Original: A Teoria da Mente segundo Freud, da editora 7Letras, Daudt trata do desenvolvimento do psiquismo ao longo da primeira infância, abordando o surgimento de prazeres próprios de cada etapa, como o prazer da boca, o de ver e o de ser visto – e é justamente para esse último que a timidez poderá se tornar um problema. A psicóloga e psicanalise coordenadora da Palavra e Cia – Centro de Especialidades Humanas, afirma que “a timidez é um problema na primeira infância quando inibe ou impede o encontro com o mundo – as pessoas ou os objetos, que podem parecer ameaçadores aos olhos da criança”.

Segundo a psicóloga, a inibição de forma acentuada, na primeira infância, pode prejudicar a autoestima e a capacidade de simbolizar e criar.

Em casos em que a timidez esteja mais preeminente, Lidia Aratangy diz que é crucial observar bem o que está se passando com a criança. “Conversar com a escola,
tendo-a como aliada, buscar descobrir o que vem causando essas dificuldades de relacionamento com os outros, mudanças que possam gerar sentimento de inadequação, se está sofrendo bullying”, pontua a psicanalista, completando: “Até mesmo a alta expectativa dos pais pode resultar em uma alta dose de medo na criança”.

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Conectada: Julia, de 7 anos, enfrentou a timidez com ajuda de um canal
de YouTube que ela mesma teve a ideia de criar

Mudanças de escola

Foi justamente a mudança de uma escola menor, com 12 alunos, onde todos se conheciam, para uma instituição maior, com crianças maiores, que fez com que a timidez de Julia, de 7 anos, se tornasse uma preocupação real. Em poucos meses na nova escola, Aline Rondas, mãe da menina, recebeu um chamado da coordenadora.

Levou um baque, afinal, até então, Julia tinha sido uma excelente aluna. Lá, ouviu relatos de que a pequena, que “sempre foi muito na dela”, não se envolvia nas atividades. Depois da conversa, ela foi matriculada na turma de jazz na própria escola, onde foi se enturmando com as meninas mais velhas e ficando feliz com a conquista.

Outra coisa que a fez melhorar muito foi a ideia própria de criar um canal no YouTube. No começo, só gravava as bonecas, mas, com o tempo, passou a aparecer diante da câmera. “Ela é falante, se expressa muito bem, mas a timidez atrapalhava”, resume Aline, que já conversou com a filha sobre o costume da escola de trocar os alunos de classe a cada novo ano letivo. “É uma iniciativa interessante, pois ajuda as crianças a exercitarem o convívio com outros alunos”, aprova a mãe.

Apesar da tão pouca idade, a pequena Clarice, de 4 anos, também tenta vencer a timidez em algumas das atividades escolares cotidianas, de acordo com os relatos que a mãe da garotinha, Bruna Rocha Barbosa do Carmo Costa, recebeu da professora. A pequena sempre foi tímida, desde bebê, e muito apegada aos pais e a familiares mais próximos. “Nunca foi uma criança de sorriso fácil, está sempre desconfiada, não consegue responder o próprio nome e a idade quando perguntam, se agarra às nossas pernas e esconde o rosto. Muitas vezes, tentamos forçar a barra para ela interagir e perder a timidez, cumprimentar as pessoas, porém estamos aprendendo em conversas com a pediatra que isso não é o correto e passamos a nos policiar”, diz Bruna, que também é tímida e, por enquanto, não pretende procurar ajuda profissional, porque quer esperar a filha crescer um pouco mais. “Acredito que a timidez não está atrapalhando o desenvolvimento cognitivo e social dela e, quem sabe, seja algo transitório”, analisa a mãe.

Sem receita fácil

Para o psicanalista Francisco Daudt, realmente, terapia, cursos de teatro ou mudar de escola são recursos extremos, necessários para casos extremos: “Na maioria das vezes, basta mostrar a disponibilidade das linguagens do mundo, como as brincadeiras de grupo, os esportes de grupo, o teatrinho da escola. Nada forçado, tudo como opção disponível. É preciso transmitir à criança a noção de que ela pode experimentar, que não precisa ‘performar’, que tudo é só uma brincadeira, nada é tão a sério ou definitivo”.

Lidia também vê com ressalvas o senso comum de matricular a criança tímida numa escola de teatro como se houvesse receita fácil: “Pode até ser pior. Ter um cachorro pode ajudar mais, ou convidar amigos, aos poucos, para brincar em casa”. Outros recursos para o desenvolvimento social e emocional dos filhos apontados pela psicanalista incluem levar a criança ao teatro para assistir a peças, incentivar e orientar nos jogos coletivos e não trocar o convívio humano dos pequenos por eletrônicos.

Danielle Matos concorda com seus pares: “Em algumas crianças, essas manifestações de timidez cessam rapidamente, com o manejo do ambiente e das condutas educacionais das pessoas responsáveis pelos cuidados dela”, explica, complementando que há situações em que é necessário um acompanhamento psicoterapêutico.

A psicanalista destaca ainda que um local com muitas restrições de barulho e circulação ou condutas educacionais muito autoritárias pode dificultar o aparecimento da autoconfiança e da espontaneidade da criança. “São aconselháveis normas educacionais mais democráticas, motivadoras dos gestos espontâneos de criação e apropriação do mundo pela criança, além de ações não invasivas, que não coloquem a criança em exposição, obrigando que ela seja mais extrovertida sem que se sinta segura para isso.

Ou seja: respeito à personalidade da criança e às defesas que ela criou, no seu encontro com o mundo que, a princípio, para ela, pode parecer ameaçador”, conclui.

Sinais de alerta

Veja algumas demonstrações de que a criança está tendo dificuldades relacionadas à timidez:
» Ansiedade
» Rebaixamento de humor
» Aparente desinteresse por objetos e pessoas que, de modo geral, chamariam sua atenção
» Autoprivação de situações lúdicas, preferindo a zona de conforto junto à família

Fonte: Psicóloga e psicanalista Danielle Matos, professora da Faculdade FEAD/MG e coordenadora da Palavra e Cia - Centro de Especialidades Humanas.

 

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