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'Você se torna o que você vê'. No que você tem colocado sua atenção?

25 de Outubro de 2017 | Faz Sentido

boasnoticias_branden-harvey-362109.jpg (173 KB)Constantemente eu me pergunto quantos dos meus hábitos são realmente necessidades minhas, do meu ser mais profundo, e quantos são, na verdade, demandas externas, criadas apenas para me tornar consumidora, cliente. Para "não ficar de fora".

Acho que isso fica bem nítido quando pensamos em bens de consumo: seja um carro mais confortável, o celular mais fino, ou mesmo as roupas da estação (e no universo infantil também sempre há infinitas novidades, das quais parece que o filho vai ser menos digno se não tiver). Mas tenho observado que existe uma demanda externa mais sutil que nos torna consumidores vorazes, só que com um efeito mais devastador do que a gente imagina. A demanda de estar sempre bem informado, consumindo notícias que em sua maioria não são boas.

Proponho o exercício: em um dia qualquer, tente observar como são as notícias que chegam até você pela televisão, pelo rádio, internet, facebook ou mesmo WhatsApp. E quais impactos e sensações elas geram no seu dia. Veja, elas quase nunca são positivas e quase nunca geram sentimentos de alegria e bem-estar. E mesmo as que são boas se afundam rapidamente num mar de tragédias e desgraças. Muitos estudos já comprovaram que escutar notícias ruins logo de manhã aumenta a chance de você começar o dia mal.

Parece óbvio, não é? Só que tenho reparado que estamos viciados nisso. Anestesiados. Habituados a só falar de coisas ruins. Nas reuniões de família, no Uber, nas conversas do trabalho. Parece que nada está maravilhoso. Nem o clima agrada. Acompanhamos tragédias, assassinatos e outras histórias igual quem acompanha uma novela, esperando por capítulos novos a cada dia. O medo, a dor e a tristeza viraram nosso entretenimento. Algo do qual a gente se ocupa sem que, de fato, faça algo transformador a respeito. Aí a gente constrói o muro das lamentações e vai carregando ele por todos os lugares. E, nossa, como são feitos de blocos pesados que tornam a vida difícil!

Na medicina indiana ayurvédica existe uma frase que diz "você se torna o que você vê". E é algo que faz cada vez mais sentido quando você fica mais consciente. Quando voltei das minhas férias, completamente alheia aos noticiários, feliz da vida (e me sentindo meio herege, afinal, como jornalista parece um pecado não saber "o que está acontecendo no mundo"), percebi que o mundo que eu vivia não era o mesmo que o dos meus amigos quando os reencontrei. Em poucos minutos eles me atualizaram, involuntariamente, de todas as coisas ruins que estavam acontecendo naquela semana. Fiquei até tonta. Mas será que essa era mesmo a realidade, ou ao menos parte da realidade?

Veja. Quando você engravidou, parece que só tinha grávidas no mundo todo, em qualquer lugar. Quando você viu um carro bonito do qual gostava, meu Deus, apareciam milhares deles nas ruas, todos os dias. E assim por diante. Até o Facebook cria uma nova realidade para você: pesquise sobre um determinado assunto algumas vezes e logo sua timeline trará aquela temática com muito mais força. Na vida, será que a realidade realmente se alterou ou você passou a ver mais porque simplesmente botou mais atenção nisso? Arrisco dizer que com o mundo é a mesma coisa, independentemente de estatísticas ou não.

É aí que eu quero chegar com essas palavrinhas todas que eu fiz você ler: sim, a gente vai se tornando aquilo que a gente vê porque a realidade é uma construção particular de cada um. Não existe A Realidade, com letra maiúscula, como verdade suprema. Há tantos universos dentro de um só! E existe aquilo que a gente enxerga. Se a gente só enxerga o que está ruim, a vida só vai ser ruim. É duvidoso de tão simples que é, mas é muito real e de fato não seria justo se fosse diferente. Nossos pensamentos têm um poder incrível sobre nosso bem-estar, e sobre o desencadeamento de coisas que acontecem a partir de uma ideia que criamos. Basta se concentrar que a grana está curta, que o dinheiro acabou, e pronto, você só vê mais e mais gastos sabotarem a sua carteira. Tudo quebra e tudo falta. (Só para dar um exemplo banal).

Gostaria que a gente reparasse mais sobre quantos dos nossos pensamentos têm sido perturbados por esse medo que virou entretenimento, que virou assunto de todas as rodas. Que a gente dá força e alimenta sem fazer nada para transformar o ruim em bom. Num certo nível, fica até descabido olhar pro mundo e se sentir feliz e satisfeito. "Mas como você tem coragem, com tanta desgraça acontecendo...". Só que não é bem assim.

Talvez se manter afastado de tudo o que acontece de ruim seja viver em uma bolha. É claro, a gente precisa tomar certos cuidados para ter mais segurança. Mas se informar e se alimentar só do que vai mal também pode ser viver em uma outra bolha, tão perigosa quanto. Que nos torna reféns e prisioneiros na vida.

Sobre o que podemos conversar com os amigos hoje? Quão espirituosos podemos ser em nossas conversas, para que elas deixem de alimentar tanto medo, baixo-astral e negatividade? Tento lembrar que tudo o que eu falo sobre o mundo externo talvez esteja só refletindo o meu mundo interno e a forma como tenho criado a minha própria realidade. Talvez a partir disso possamos enxergar que sim, há coisas horríveis acontecendo por aí, mas também há muita coisa boa para alimentar o dia, a vida e a alma.