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'Você é uma péssima mãe' e os bilhetes dos nossos julgamentos

22 de Novembro de 2017 | Faz Sentido

bilhete_vocepessimamae_reproducaofacebook.jpg (97 KB)Uma mulher desconhecida passa pela mesa na qual você está jantando com a família em um restaurante e deixa um bilhetinho; vai embora antes mesmo que você possa ler a mensagem. “Você é uma péssima mãe!”, é o que o papel diz, sem nenhuma cerimônia. Isso aconteceu com a Fernanda, amiga de um amigo meu. O filho de Fernanda dormia nas cadeiras enquanto os pais terminavam o jantar. Fernanda logo começou a questionar sobre o que teria feito a mulher pensar aquilo sobre ela.

Quando li o relato de Fernanda fiquei estarrecida. Meio descrente da humanidade. Quanta ignorância, machismo, brutalidade cabiam naquele pedaço de papel? A gente poderia analisar essa história observando como o pai passou ileso ao episódio, mesmo sendo igualmente responsável pelo cuidado com as crianças; como mães sempre dão o seu melhor, mas isso nunca parece bom o bastante; como é “simples” criar a culpa naquelas que já nascem com a culpa; como as pessoas se satisfazem ao ferir as outras... E por aí vai.

Mas depois pensei em algo bem mais desconfortável de se pensar. Quantos bilhetinhos mentais nós escrevemos por aí em relação a tantas situações que correm nossos olhos ao longo de um único dia? Quantas vezes eu não escrevi um bilhetinho com as teclas dos meus pensamentos criticando a atitude de alguém, a postura de alguém, o jeito de se vestir de alguém e qualquer coisa da qual a gente tenha se dedicado a classificar arbitrariamente como certo e errado, adequado e inadequado, feio e bonito...?

Reparei que estamos julgando o tempo todo. Desde o cabelo, a roupa, passando pelas atitudes, pelo trabalho esforçado de alguém. Somos capazes de escrever bilhetes ainda mais insensíveis e crueis. Só não os entregamos, mas acho que eles vão se acumulando na nossa mesinha mental e, sem que percebamos, vão trancando a nós mesmos nos labirintos do que devemos ou não devemos fazer ou ser. Nos sentimos poderosos e cheios da verdade e do bom-senso quanto mais o dedo aponta.

A verdade é que quanto mais julgamos, mais nos sentimos também julgados. E isso é uma prisão infernal. Um sistema que se retroalimenta. Há uma frase que li há muito tempo que diz mais ou menos assim: o que você pensa sobre alguém pode dizer mais de você do que desse alguém. Quanto mais duros somos com os outros, mais duros somos conosco. Fico pensando que julgar tanto possa ser um reflexo da nossa própria falta de autocompaixão e segurança. Por trás de cada pessoa a que nos sentimos confortáveis e felizes em julgar estão histórias das quais nós nunca saberemos. Razões que não são as nossas; jeitos de ver a vida que não conhecemos. E motivos que, na maioria das vezes, não nos dizem respeito. Simplesmente não são da nossa conta. Para um bom julgador, isso até dói. Mas é verdade: certas opiniões definitivamente não importam. Não fazem do mundo um lugar melhor, não acolhem, não transformam. Então para que cultivar tantas pedras no próprio bolso para atirá-las por aí?

Que nossos bilhetinhos possam ser de mais compaixão, afeto e empatia. Que os julgamentos que condenam se transformem em vozes que libertam para expressar o nosso melhor (seja ele bom para o outro ou não).

 

 

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