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Amar, verbo intransitivo. Amar nossos filhos, mais intransitivo ainda

22 de Setembro de 2017 | Sem Manual

Paiefilha_pixabay.jpg (186 KB)

Por Marcílio Lana

Ela se sentou ao lado do pai.

Quieta, fixou os olhos nos afazeres daquele ser absolutamente distante.  Não esperou o fim, porque fim daquele jeito não queria. Então, perguntou:

“O que é intransitivo?”

Absorvido, quase consumido pela tela do computador, o homem nada disse. Feito pedra estava.

Ela não se serenou. Perguntou, mais uma vez: “Pai...ô pai! O que é intransitivo?”

Dessa vez, os olhos do homem de meia idade, cabelos grisalhos e barba, se voltaram para a imagem da menina. Mas os dedos, ainda que em repouso, não abandonaram as teclas do computador.

Filha, estou um pouco ocupado, será que podemos ter esta conversa outro dia, quando eu estiver um pouco mais tranquilo? Quem sabe no próximo final de semana?”

“Por que você diz que está ocupado? Você está em casa, não está? E se está aqui devia dar um pouco de atenção para a gente, certo!”

O tom não foi de pergunta, mas de afirmação. A garota já esboçava indignação no semblante, quando o pai, agora convencido, disse.

“Você está certa, minha querida e amada filha. Não faz mesmo sentido eu vir para casa, mas não estar em casa. Sim, você tem toda razão”.

Ela se virou, mirou os olhos arredondados no homem e esbravejou: “Ainda bem! Já estava perdendo as esperanças!”

Ela correu para o quarto – o apartamento não era muito grande, e em alguns instantes já estava na frente do pai com uma de suas bonecas. “Você disse que ia me ajudar a consertar a Rebeca! Olha, a perna dela está se soltando”, disse em tom de cobrança.

“Filha, consertar a Rebeca? Tem que ser hoje? Eu parei de trabalhar porque você me fez uma pergunta. Estava me preparando para responder, e agora você traz a Rebeca! Tente entender, eu não vou ignorar os seus chamados, mas não posso interromper completamente ou não terminar o que estou fazendo”!

Inconformada, a garotinha se sentou novamente à mesa. “Está certo! Consertamos Rebeca outro dia. Mas você tem que responder a pergunta que eu lhe fiz.”

“Respondo, filha, claro. Mas preciso que você repita a pergunta”, disse o homem.

Desolada, a menina sussurrou: “Você não estava prestando atenção, não é! Toda vez é a mesma coisa. Você vem pra casa, dá um beijinho na gente e depois vai logo mergulhando, de corpo e alma, nesse computador. Não está certo, sabia?!”.

“Perdão, minha querida. Você tem razão. Vou ficar mais atento. Mas, por favor, repita a pergunta. Vou tentar responde-la.”

“Vou repetir”, disse. “O que é intransitivo?”

“Como, intransitivo? Onde você ouviu isso?”

Ela olhou novamente para o homem e disse: “Pai, você me disse que iria responder a minha pergunta. Agora, lá vem você fazendo perguntas para mim....”

O homem ficou em silêncio por alguns instantes. Pegou na mãozinha da filha e disse. “Minha amada, intransitivo é como o amor que a gente sente um pelo outro. Ele é definitivo, para sempre. Não é passageiro.”

“Então o nosso amor é intransitivo?”, a menina repetiu a pergunta, mas já em tom reflexivo. “Papai, adorei nossa conversa”, disse. Ela se levantou, pegou Rebeca, e foi, cantarolando, para o quarto.

Quando retornou os olhos para a tela do computador, o homem percebeu que o texto que ele pretendia escrever estava pronto. Não teve dúvidas. Abriu a caixa de mensagens, anexou o arquivo e o enviou para a editora. Já era tarde, noite adentro, e o homem resolver se deitar. Estava feliz, pois também gostara da conversa. Caminhou para o quarto balbuciando repetidamente a palavra: intransitivo