Consulte a Melhor Programação para o seu filho

Consulte a melhor programação para o seu filho

Ver todas as atrações


A mãe, o menino e o @mor nosso de cada dia

18 de Maio de 2018 | Sem Manual

Ela não tinha clareza sobre o que havia se passado nas últimas horas. Ao abrir os olhos, ainda deitada na cama do hospital, mal sabia direito onde estava. O presente lhe parecia estranho, distante. A mente se ocupava dos anos de sua vida, que se apresentavam em fragmentos dispostos entrelaçados pela teia da memória.

Lembrava-se do dia que fora obrigada a abandonar a casa dos pais. Nascida em uma cidade do interior, localizada na região centro-oeste de Minas Gerais, ela teve que se defrontar, logo muito cedo, com o preconceito. Jovem, quase menina, se enamorou por um homem maduro e casado; engravidou e acabou sendo expulsa de casa.

Guerreira, como são todas as mães, buscou abrigo no desconhecido. Rumou para a capital, encontrou amigos, teve acolhida; enfrentou a dor e a solidão. Ainda com o ventre dedicado ao filho, se entregou. Frequentou “grandes festas nos endereços mais quentes. Tomou champanhe e cicuta com comentários inteligentes mais tristes que de uma puta no Barbarella às 15 para 7.

O menino nasceu.
O menino foi amentado.
O menino chorou, sorriu, dormiu.
O menino foi amado, até mesmo paparicado.
O menino é amado.

Ele cresceu e do amor deles surgiu uma bela amizade. Dessas amizades que têm cheiro e gosto de caminhada sob o sol de tarde de sábado. Dessas amizades que esquentam o peito, que deixam a gente com vontade de cantar.

Sim, como amigos brigaram muito, mas também muito comemoraram.

O vento do tempo soprou sobre suas vidas e o menino se fez homem e a mulher, senhora. Passaram a se cuidar, passaram a compartilhar. Juntos assistiam TV e experimentavam manhãs sob o aroma do café. Mãe e filho estavam em paz. Estavam, como sempre estiveram, lado a lado, de mãos dadas.

Enfim, se reconheceu deitada na cama. Abriu os olhos, olhou para o lado e viu o filho recostado na cadeira. Ele se entregara a um sono cansado e doído depois de uma noite turbulenta e movimentada no hospital. Ela estava presente, ela estava no presente.

Mirou detalhadamente o filho. Ele se tornara homem.

Tomou-o por inteiro e foi tomada por uma sensação boa, de ternura com cheiro de rosas. Fechou os olhos e se foi.

Naquele dia, ele escreveu e compartilhou com familiares e amigos: “Dal: Palavra de vários significados: amor, generosidade, maternidade plena, amizade, entrega, família, carinho, amor, entrega e tudo que há de melhor que se pode resumir em uma palavra. Minha mãe, infelizmente, faleceu hoje. O velório será amanhã no Cemitério Parque da Colina, na sala para crematório. Será de 7h às 14hs”.

Dal é Adarcione Vieira Franco, mulher que então se fez minha prima pelos caminhos do coração. Amiga de todas as horas. Dádiva que a gente recebe. Pessoa por quem nutro enorme carinho e admiração. Dal se encantou e agora faz parte de uma constelação de outras estrelas.

Esta crônica é uma homenagem ao amor da mãe pelo filho e ao amor do filho por sua mãe. Ela [a crônica] não retrata fielmente a história de Adarcione e Felipe Franco, mas dá conta de esboçar o amor que existe entre eles.

Hoje, 18 de maio de 2018. Meu pai completaria 94 anos.