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Conheça a história da bebê que nasceu debaixo de um pé de amora em BH

01 de Dezembro de 2016 | Corrente do Bem
A pequena nasceu no meio de uma rua no bairro Santo Antônio e a reportagem da Canguru aproveita para contar um pouco sobre as mães que vivem em situação de rua na cidade. 

 

POR Cristina Moreno de Castro e Rafaela Matias 

Parto aconteceu debaixo deste pé de amora, em uma rua do bairro Santo Antônio, Centro-Sul de BH | Foto: Nidin Sanches

"SOCORRO! ALGUÉM NOS AJUDE!" Eram 3h da madrugada quando os gritos entraram pela janela aberta do quarto onde dormia a agente de viagens Edimir Soares Morais, a Dídi, de 48 anos, no quinto andar de um prédio no Santo Antônio. 

Além desses apelos, havia apenas silêncio. Ne­nhuma outra janela se abriu e nenhuma luz se acendeu nos outros 43 apartamentos do prédio de Dídi, nem nos prédios de oito, 12 e 13 andares ao redor. Mesmo assim, ela se agasalhou, pegou o celular e desceu sozi­nha. Logo foi abordada por um morador de rua, que disse, num tom urgente: "Minha namorada está tendo neném! Toquei nos interfones, e ninguém nos ajudou." 

Não deu tempo de esperar pela ambulância. A jovem de 26 anos se contorcia de dor, deitada em um colchão­zinho no pequeno barranco que margeia a rua Rafael Ma­galhães, debaixo de um pé de amora. O nascimento era iminente. "Faz força, então", instruiu Dídi, que, até aquele momento, nunca tinha visto ou vivido um parto antes. 

"Vi a menininha saindo e tive que aparar para que ela não caísse", conta Dídi. Miudinha, com 2,240 kg, a neném* foi embrulhada em uma jaqueta para ser pro­tegida do frio. Naquela madrugada de 28 de setembro, as estações do Instituto Nacional de Meteorologia mar­cavam 18,2ºC e ventos de 24,4 km/h. 

Na segunda ligação para o 190, uma viatura de polícia apareceu e telefo­nou para o Samu, às 3h43. A ambulância chegou ao local às 4h17, segundo os registros da Secretaria Mu­nicipal de Saúde. Foi só então que o cordão umbilical foi cortado e a jovem mãe foi colocada em uma maca para ser levada à Maternidade Odete Valadares. Antes, Dídi voltou ao apartamento e buscou uma manta, que usou para aquecer o bebê. "Você tem que ser a madrinha dela!", ouviu da jovem mãe, antes de passar o telefone para que ela informasse a prima sobre o parto. 

Infografia da Canguru

Tristes estatísticas 

Belo Horizonte tinha, no mês de novembro, 12 mu­lheres grávidas em situação de rua, segundo o Serviço Especializado em Abordagem Social, coordenado pela Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social, que faz o trabalho de acompanhamento dessas gestantes. Elas estão espalhadas nas regionais Leste, Venda Nova, Pampulha, Nordeste e Centro-Sul da capital. 

Não é raro que mulheres em situação de rua engra­videm, mas é no mínimo incomum que o nascimento aconteça em plena rua, como foi nesse caso. Em um ano e meio de trabalho voluntário diário com moradores de rua, foi a primeira vez que Jhulie Rodrigues, que atua em uma casa de resgate, ouviu falar disso. "Próximo à data do nascimento, elas vão para a casa de parentes ou conseguem ajuda de pessoas para ir para a maternida­de. Esse caso foi inusitado", diz Jhulie. Em todas as si­tuações que ela acompanhou, os bebês foram enviados a abrigos. "A mãe geralmente volta para a rua", relata. 

Foi exatamente o que aconteceu com a jovem de nos­sa história. Órfã de pai e mãe, vítima de maus-tratos na infância e hoje dependente química, ela retornou às ruas assim que teve alta. A reportagem da Canguru tentou encontrá-la no Santo Antônio em três ocasiões, mas ela já tinha migrado para outra parte da cidade. Já a bebezi­nha ficou 26 dias na maternidade, por decisão judicial, até que uma prima ficasse com sua guarda temporária. Hoje ela vive em uma casa em Ribeirão das Neves, e, no mesmo lote, moram mais de 20 pessoas da mesma famí­lia. Segundo sua tutora, está saudável e já ganhou peso. 

A agente de viagens Edimir Morais: testemunha de um nascimento debaixo de um pé de amora no bairro Santo Antônio | Foto: Nidin SanchesNasce uma mãe 

Depois de ter se envolvido em um nascimento tão inusitado, Dídi diz que sua vida mudou. A indiferen­ça dos vizinhos foi o que mais chamou sua atenção: "As pessoas não foram nem capazes de abrir as ja­nelas. Elas têm que parar de olhar só para o próprio umbigo e ajudar". Naquela madrugada, não foi só a bebezinha que nasceu, mas também uma mãe, den­tro de Edimir: "Eu estava perdida no meu mundinho pequeno, e foi ela que me encontrou. Descobri um instinto materno em mim. Se eu pudesse, teria ficado com a bebê". Naturalmente, a menina está em sua lis­ta de presentes a dar neste Natal. Os planos de Dídi para 2017? Entrar em uma fila de adoção. 

 

*A Canguru não publica os nomes da bebê nem de seus familiares para preservar a criança, conforme determinado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.
 
 

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