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Rossandro Klinjey: 'Você não pode garantir que seu filho será feliz'; leia entrevista

05 de Fevereiro de 2018 | Comportamento
Palestrante e escritor, Rossandro Klinjey fala sobre como os pais estão prometendo o que não podem cumprir e defende o resgate da disciplina em casa

Por Juliana Sodré

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Rossandro Klinjey é escritor e palestrante | Foto: Rondinelle de Paula

Rossandro Klinjey é palestrante e escritor, psicólogo clínico, mestre em saúde coletiva e doutor em psicanálise. É autor do livro best-seller As 5 Faces do Perdão e do mais recente Help! Me Eduque. Paraibano de Campina Grande, faz sucesso nas mídias sociais, nas quais tem mais de 400 mil seguidores e 20 milhões de visualizações em seus vídeos sobre educação. Na TV, faz parte do quadro de convidados do programa Encontro com Fátima Bernardes. Nesta entrevista para a Canguru, Klinjey falou sobre os desafios da educação, o empoderamento precoce das crianças, o uso exacerbado das tecnologias e a necessidade do resgate da disciplina.

Canguru – Existe uma educação ideal para nossos filhos?

ROSSANDRO KLINJEY – Não existe uma receita de bolo. A gente sempre quer a fórmula mágica, mas o que existem são atitudes que aumentam a tendência de você conseguir bons resultados na educação de um filho. Existiam coisas que funcionavam muito bem na educação no passado, e outras que funcionavam muito mal. A família era rígida, pouco democrática, a mulher era submissa, tinha pouco diálogo, mas havia disciplina, ordem e respeito. A geração atual quis mudar isso tudo e destruiu aquele modelo, inclusive no que funcionava. Hoje, a família tem muito diálogo, democracia maior, o pai começa a participar mais do processo educativo, mas, muitas vezes, se perde uma coisa que foi fundamental antes, que é disciplina, ordem e respeito. Você se esquece de que ser amigo do filho é abrir mão de uma posição única e exclusiva de pai e de mãe.

“Eu posso fornecer para meu filho um
conjunto de competências para ele
suportar a vida como ela é, e não a
garantia de que sua vida será feliz.”

Você diz que o exemplo é a única forma de educar. Como fazer isso se a atual geração de pais vem de uma educação com falhas?

Não existe pai ou mãe que criará um filho sem trauma e perfeito. Essa angústia tem que cessar. A maior busca dos pais hoje é uma coisa que não existe: eu quero que meu filho seja feliz. Então, você faz o quê? Seu filho não tem frustração, seu filho nunca escuta “não”. Tem gente que brinca com o filho e não o deixa perder. Não pode ser assim, no jogo se ganha e se perde. O casamento acaba, a relação sexual acaba, você faz tudo, cria uma redoma. Mas um dia ele vai ter que sair para o mundo e, quando vier o primeiro “não” da vida, ele não terá desenvolvido competência emocional para suportar a frustração. Isso resulta em depressão infantil, ansiedade infantil e suicídio. Coisas que eram descritas como casos de exceção psicológicos e psiquiátricos e hoje estão virando epidêmicos. Então, se você tiver que errar, copie o modelo que você recebeu dos seus pais.

Você acredita que a tecnologia e as redes sociais são um fator positivo ou negativo para as crianças?

As redes sociais e os smartphones são neutros em si, a grande questão é o uso que a gente está dando a eles. Uma pesquisa da Universidade Harvard mostra que, se você estiver estudando e seu celular receber uma notificação, só de você olhar para ela, não precisa nem abri-la, seu cérebro leva oito minutos para voltar ao nível de concentração anterior. Crianças e adolescentes que vão para a escola com smartphone, que dormem com o smartphone e depois têm que ter professor de reforço, [é dito que] têm déficit de atenção, que têm que tomar Ritalina, e não é nada disso.

E as crianças menores de 6 anos? Elas não têm telefone, mas usam os dos pais.

Eu acho que a questão é diminuir o uso de smartphones e tablets, porque eles diminuem o [desenvolvimento] cognitivo das crianças. Para você ter uma ideia, o QI médio mundial, desde que foi medido, sempre aumentou. Em 2016, pela primeira vez na história, diminuiu. O que eu aprendo se eu passo seis, sete horas dentro de uma rede social, ou no WhatsApp, fazendo vídeos para o Snapchat ou o Insta Stories? Nada! As discussões são rasas, sem profundidade, repetitivas, padronizadas. Você pede a um jovem hoje para ler um texto de 30 páginas e ele pensa que tem que ler a Bíblia. Quando conseguem ler, não conseguem entender. E isso não é só no Brasil, não.

E isso é atribuído a quê?

Ao uso exacerbado da tecnologia, que entrega tudo muito pronto. Eu não tenho que pensar. Um texto de estudo é uma leitura parada na sua frente, que exige um tempo de concentração, que depois você tem que interpretar e ter o julgamento crítico. Isso exige um esforço que as pessoas não conseguem mais ter.

“Hoje existe o empoderamento precoce de
crianças e adolescentes. E quando você
dá poder a quem não tem maturidade e
habilidade, você cria um déspota.”

Qual é o maior desafio dos pais de hoje? E qual é o maior perigo para essa nova geração?

Acho que primeiro é você dar a extrema liberdade achando que isso é politicamente correto. Tem pais que não entram no quarto dos filhos, que não olham o que eles estão vendo na internet, porque acham que isso é invasivo. E é com essa atitude politicamente correta, que na verdade é uma omissão, que pedófilos do outro lado contam. Porque isso é uma omissão; crianças e adolescentes precisam da vigilância de adultos, eles não têm autonomia para fazer escolhas. Você tem que ir dando autonomia conforme a maturidade vai vindo. Hoje existe o empoderamento precoce de crianças e adolescentes. E quando você dá poder a quem não tem maturidade e habilidade, você cria um déspota. Eu também conheço pessoas dessa geração altamente focadas que leem, que estudam e que também têm rede social, que conseguem brincar. Ou seja, os pais têm que modular tudo.

O nome do seu último livro, Help! Me Eduque, seria um alerta para os pais? Um pedido das crianças para que não fiquem sem orientação?

Claro, porque, depois que dá tudo errado, as crianças sabem o prejuízo que tiveram. O pai educador é aquele que está preocupado em criar competências, em criar um indivíduo para enfrentar a vida, sobretudo com competência emocional. Não adianta colocar o menino numa escola bilíngue, no alemão, no balé, no xadrez e não estar junto, não escutar, não brincar, não aprender a ouvi-lo, não ser uma companhia agradável para ele. Essa é a função prioritária da família, que é a construção das habilidades emocionais dos filhos e da criação de resiliências.

Palavras como resiliência e gratidão parecem estar na moda. Por quê?

Porque as pessoas deixaram de ter isso, o que tem gerado grandes prejuízos. O que é gratidão? É você olhar para sua família cheia de defeitos, mas perceber que, sim, também há virtudes. Eu não vou ficar criticando nem cobrando dos meus pais as incoerências que qualquer ser humano comete, mas vou agradecer porque, apesar dessas inconsistências, eles fazem tudo o que podem para a minha vida ser melhor que a deles. Gratidão e resiliência significam dizer: eu agradeço pela vida que eu tenho e desenvolvo competências para suportar a vida como ela é.

Qual outro sentimento ou valor que precisa voltar?

Disciplina. A gente confundiu disciplina e autoridade com autoritarismo e força. Renato Russo tem até uma música aparentemente incoerente e incompatível em que diz: “disciplina é liberdade”. Para as pessoas, disciplina parece prisão. Mas se você tem disciplina para construir sua vida, depois você terá liberdade para fazer dela o que você quiser. A liberdade precisa da disciplina, como o amor precisa do respeito. A gente inverteu, a gente foi para o final e perdeu o começo – e não está funcionando.

A missão da Canguru é criar filhos melhores para o mundo. Para você, o que deve ser feito para criar filhos melhores para o mundo?

Não prometa o que você não pode dar – a felicidade –, mas prometa dar o máximo que você pode para que seus filhos tenham competência de viver a vida da melhor forma possível.

 

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