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Cinderela às avessas

05 de Maio de 2016 | Comportamento
Eternizadas como bruxas nos clássicos infantis, madrastas da vida real mostram que é possível criar verdadeiros vínculos de afeto com os enteados.
 
POR Isabella Grossi
Walmer e Juliana estão juntos há oito anos, mesma idade do filho dele, Henrique:
Walmer e Juliana estão juntos há oito anos, mesma idade do filho dele, Henrique:
"A nossa relação sempre foi muito próxima e de muito carinho", diz a advogada. Foto: Gustavo Andrade

Durante muito tempo, o estereótipo de vilã pintado nos contos de fadas acompanhou a vida real de muitas madrastas. No Brasil, a perversidade da companheira do pai foi reconhecida até no Dicionário Michaelis, que, em um dos verbetes, define-a como mãe que maltrata os filhos e, em outro, como ingrata e pouco carinhosa. “Antes da Lei do Divórcio de 1977, a entrada da madrasta ocorria após a viuvez. A tendência, então, era o modelo de substituição, o que significa que ela tomava o lugar da mãe”, explica a psicóloga e professora da UFMG Laura Cristina Eiras Coelho Soares, que publicou o livro Pais e Mães Recasados — Vivências e Desafios no Fogo Cruzado das Relações Familiares. O tempo passou e o cenário mudou. Atualmente, com o alto índice de divórcios — mais de 340 000 apenas em 2014, conforme dados do IBGE —, as relações foram rearranjadas e, embora nem sempre as histórias de famílias recompostas tenham finais felizes, a figura da madrasta passou a ser mais querida e, principalmente, mais respeitada.

A pedagoga Rachel Silva, mãe de Maria Eduarda (à esq.), tem uma excelente relação com Alice e Thaís: “Eu assumi mesmo as meninas
A pedagoga Rachel Silva, mãe de Maria Eduarda (à esq.), tem uma excelente relação com Alice e Thaís: “Eu assumi mesmo as meninas". Foto: Gustavo Andrade

“Não existe formação familiar melhor nem pior do que a da primeira união. O bem-estar decorre da qualidade das interações, das relações e não do formato”, reforça Laura. A advogada Juliana Magalhães Siqueira Virgínia, de 29 anos, é prova disso. Quando ela iniciou o namoro com o personal trainer Walmer Martins Santos, de 34, Henrique, hoje com 8 anos, ainda estava na barriga da mãe. “Eu o acompanho desde o seu nascimento. A nossa relação sempre foi muito próxima e de muito carinho”, conta Juliana, que, junto ao pai, participa ativamente do dia a dia do menino. “Desde pequenininho ele sabe diferenciar o papel de cada uma.” Para a psicóloga Laura, é importante que a mãe também saiba que o lugar ocupado não é substitutivo. Pelo contrário. É um novo espaço de cuidado. “Dessa forma, é possível propiciar um campo familiar menos conflitivo e possibilitar que os filhos estabeleçam laços verdadeiros de afeto com a madrasta”, garante.

Em muitos casos, a criança recusa o convívio com a madrasta por considerá-la uma ameaça para o retorno do relacionamento dos pais, por ciúme ou até mesmo por receio de sucessivos divórcios, ou seja, medo de estabelecer um vínculo e logo depois o casal se separar. A pedagoga Rachel Álvares da Silva, de 34 anos, conseguiu driblar esses obstáculos, mas assumiu um outro grande desafio. Quando conheceu seu atual marido, o administrador Ricardo Góes Barbosa, de 43 anos, fazia pouco tempo que ele havia ficado viúvo. A caçula, Thaís, hoje com 6 anos, mal tinha completado 1, enquanto Alice, de 10 anos, estava com 5. “Eu assumi mesmo as meninas. Nunca teve esse empecilho de me aceitarem ou não, mas é claro que existem certas dificuldades, principalmente em relação à criação. Por isso é preciso muito respeito e paciência”, afirma Rachel, que também tem uma filha, Maria Eduarda, de 12 anos, fruto de outro casamento. As três, segundo ela, brigam o tempo todo, como se fossem irmãs. “Nós dois temos a mesma autoridade e lidamos com as três da mesma maneira. Eu dou a ele total liberdade com a Maria Eduarda, da mesma forma que ele me dá com as meninas”, revela. Os dois, aliás, ganharam há pouco tempo das enteadas a melhor alcunha com a qual poderiam sonhar: a de mãe e pai.

 

Eles também amam. E como!

 

A produtora de moda Santuza Prado já era mãe de Julia, de 10 anos, e João, de 8, quando conheceu o publicitário Leo Sevaybricker: família cresceu com a chegada de Benjamim, em novembro. Foto: Gustavo Andrade
A produtora de moda Santuza Prado já era mãe de Julia, de 10 anos, e João, de 8, quando conheceu o publicitário Leo Sevaybricker: família cresceu com a chegada de Benjamim, em novembro. Foto: Gustavo Andrade

Ainda hoje, para muitos, mãe é uma só. Não tem substituta. Já o pai é aquele que cria. Embora seja abarrotada de preconceito e sexismo, a afirmativa faz jus, ao menos, à figura do padrasto. É cada vez mais comum ver famílias sendo reconfiguradas com o apoio incondicional do companheiro da mãe. É o caso do publicitário Leo Sevaybricker, de 42 anos.

Quando começou a namorar a produtora de moda Santuza Pires Prado, de 42 anos, ele ganhou de presente Júlia, hoje com 10 anos, e João, de 8. “Meus amigos perguntavam: mas ela tem dois filhos, como é que vai ser? Eu me desliguei disso e não quis muito saber”, conta Sevaybricker. O encontro com os pequenos, um com 2 anos e outro com poucos meses, à época, foi, nas palavras dele, sem explicação. “Acabei virando um outro pai. Obviamente eu não substituo o pai verdadeiro, mas faço parte do dia a dia e da educação deles. Nossa relação é muito gostosa, muito intensa. Somos alucinados uns com os outros”, assegura. Em novembro passado a família cresceu com a chegada de Benjamim.

Contrariando as previsões catastróficas dos amigos, o bebê não veio para tumultuar. “É uma experiência nova, uma descoberta linda. O carinho que os meninos têm com o Benjamim é demais, não há ciúme e eu duvido muito que haverá”, arremata.

7 mandamentos para a boa convivência

Pela psicopedagoga e psicanalista Cristina Silveira


#1 NUNCA TENTE SUBSTITUIR OS PAIS BIOLÓGICOS.

O papel da madrasta e do padrasto deve ser construído junto à criança, numa relação edificada na cumplicidade, no amor e na confiança. Jamais teça comparações, pois são atribuições completamente distintas.


#2 OUÇA A CRIANÇA.

Quando a figura da madrasta e do padrasto surge, cria-se, imediatamente, um período de reconhecimento e de adaptação. É comum os pais acharem que mau comportamento nessa fase seja sinal de birras, mas pode ser sintoma de angústia, dúvida e insegurança. Entenda o que a criança está sentindo e a ajude a se comunicar.


#3 NÃO EMPODERE A CRIANÇA, NEM A COLOQUE ACIMA DE TODAS AS COISAS.

O filho deve entender que o pai ou a mãe tem o direito de continuar a sua vida ao lado de outra pessoa e que, apesar de ser muito amado, ele não pode impedir isso.


#4 PRESTE ATENÇÃO AO AMBIENTE.

Se o pequeno apresenta um comportamento repetitivo de recusa ou agressividade, pode ser que o ambiente esteja influenciando. Observar atitudes e comentários feitos na presença dos enteados é fundamental.


#5 NÃO INVADA A VIDA DA CRIANÇA.

Conquiste-a em vez de se impor. Deixe espaço para que ela se aproxime por livre e espontânea vontade caso surja alguma resistência.


#6 NÃO TRAVE COMPETIÇÕES PELA ATENÇÃO DO PARCEIRO.

O máximo que conseguirá com isso serão infindáveis brigas em sua nova união e um stress com os enteados. Lembre-se que o adulto da relação é você.


#7 NÃO COMPRE A CRIANÇA COM PRESENTES E BENS MATERIAIS.

Essa conquista é perigosa. Mostre a ela suas virtudes, seus valores e trate-a com carinho e cumplicidade. É o suficiente.